Quem me
vê calada não sabe o barulho que faço. Não imagina o barulho que está por
dentro. E o quanto tenho que me enlarguecer para não dar um pio. O quanto tento
a todo instante emudecê-lo. Às vezes, me sinto presa na tela de Munch. Olho
para baixo. Fecho os olhos por dois segundos. Engulo a seco aquele nó de
marinheiro que fica preso goela. Desce arranhando. E nem sei aonde vai. Nem
como resgatá-lo. Tento seguir a linha do meu pensamento, costurando uma
lembrança aqui e outra ali. Será que vivi tudo isso ou minha mente está se
confundindo com tantas histórias que já ouvi? Será que estou me apropriando de
lembranças alheias? E quem se importa? Sempre fui boa de ouvir histórias, mas
nunca de vivê-las. Deve ser por isso que estou sempre a um passo de ebulir. Sou
uma catadora. Todos os pedaços de vida que ouço estão registrados em mim...
posso contar com ínfimos detalhes sobre aquele casamento que ouvi outro dia no
ônibus. Uma moça que estava sentada um pouco a frente e conversava animada com
a amiga que estava no banco de trás. Sim, ela estava em minha frente,
exatamente, como você está agora. Sempre fui muito atenta ao olhar do outro. Ao
ouvir o outro. Ao sentir o outro. Porque o outro também sou eu. Devoro cada
palavra que ouço, cada vírgula... Suspiro. Respiração. Entonação. Cada “r”.
Cada “s”. Até as piscadelas dos olhos. A pausa para beber água me deixa
excitada. Qual será a palavra falada no instante seguinte? Meus olhos parecem
desprender. Saltar. Estar atento ao outro é uma forma de ter controle sobre
mim. Não posso ignorar o desconhecido. Nem ser indiferente a ele. Viver
apreensiva é falecer a cada instante. Sou composta por fragmentos. É urgente
ouvir as pessoas. Tem dias que estou só esperando um olhar cruzar o meu para
ouvir o que ele diz... Tem cada silêncio dolorido por aí. Sou comedora de
silêncios. Até mesmo quando estou sem fome...
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021
[...]
domingo, 20 de dezembro de 2020
[...]
Escrever é resistir. É sobreviver. E
manter-se lúcida também. Por isso, escrevo. Contra todas as adversidades que
surgem. É o meu momento de existir. De ser. E de sentir. Às vezes, formulo
textos inteiros em minha mente, que se apagam em seguida. Como recuperá-los?
Impossível. Escrevo textos mentalmente. Para perceber-me diante da existência.
Reconhecer-me como ser humano que sou. E principalmente para não esquecer que
sou um ser humano. Repleto de complexidades. Que tenta manter a
consciência. Daquilo se foi. Daquilo que se é. Daquilo que será. Não é tarefa
fácil permanecer na razão. Mas difícil é perder-se dela. E o clarão tomar a
visão. Que me deixa cega. Impossível ter muitas opções e escolher apenas uma.
Melhor ter somente uma opção de estrada. Assim sigo reto e não olho para os
lados. Às vezes, a dúvida é a pior crueldade que o ser humano pode ter. Ser ou
não ser, eis a questão? O que acontecer é aceito. Não é conformismo. Apenas
aceitação daquilo que não se pode mudar. Não gasto energia para mover montanhas.
Apenas os ciscos que caem em meus olhos. Porque não consigo escrever com eles.
Lacrimejam. Ardem. Doem. E escrever é meu grito de liberdade. Libertar-se das
amarras. Libertar-se dos maus pensamentos. E dos bons também. Manter a mente
límpida. Translúcida. Não posso escapar de dizer que a angústia me aflige. Em
todos os instantes. Até o próximo, que é inédito. E assustador. É, por isso,
que o coração bate na goela. Doendo até dizer chega. Engulo saliva para
acalmá-lo. Desesperador. Escrever me desperta. Me enlarguece. Minha escrita é
minha resistência. É meu modo de existir. De me organizar. É a minha dor de
cabeça. É o meu desafio. É querer escrever o que já foi escrito mil vezes. De
uma forma diferente. Inovadora. De uma forma minha, mas que também seja sua. E
que você se identifique. É o que me alarga. É o que me renova. Que me faz
sonhar. Cada palavra escrita. Digitada. Pensada. É a minha partícula de
felicidade. Partícula de imensidão. De expansão. Perenidade...
quarta-feira, 24 de janeiro de 2018
[...]
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
(...)







